A fase dos 20 e poucos anos pode
ser difícil para pais e filhos. Saiba como
passar por esse período sem muito
estresse e, principalmente, discussões.
Com crianças pequenas, por mais
difícil que seja, os pais sabem como
agir. Em tese, a relação de poder é
clara: os mais velhos mandam e os
mais novos obedecem. Mas chega
uma fase em que a educação dos
filhos fica um pouco mais complexa.
Afinal, já são crescidos, quase
adultos, mas não estão totalmente
independentes dos laços familiares.
A época dos 20 e poucos anos pode
ser, sim, difícil para todos.
O psicoterapeuta Alessandro
Vianna, de São Paulo, fala que pais e
mães sentem, de forma equivocada,
que perderam a função de proteger
e, principalmente, o controle. "Isso gera uma falsa fantasia de
que o amor do filho vai ficar para
os outros. Aceitar que ele cresceu é
também aceitar que está preparado
para ganhar a vida, enfrentar
seus obstáculos sozinho. E muitas
vezes isso aterroriza. Não deixa
de ser uma fase de luto".
Uma situação que ajuda a
manter essa sensação ainda mais
forte é o fato de conviverem
sob o mesmo teto. "Há a falsa
sensação de controle. O filho
se posiciona como o dependente e
os pais, como os provedores".
Mesmo que o jovem esteja
estudando fora, alguns pais
continuam agindo como se o filho
morasse na mesma casa. "É algo
que veio da criação, já que ele foi
gerado e zelado ali e iniciou sua
trajetória como um ser dependente.
Essa situação acaba
estabelecendo um tipo de
comunicação que muitas
vezes é difícil de ser
quebrada. Portanto,
os pais se veem
na condição de
provedores totais,
não conseguindo
visualizar as novas
competências
dos filhos".
E isso acontece
até mesmo em
questões simples,
como marcar uma
consulta médica.
A advogada Ana
Claudia de Souza é
mãe de Marcelo,
19 anos, que estuda
em São Paulo. Em um
final de semana, ele
comentou que precisava
ir ao dentista. "Fiquei com
isso na cabeça. Tem que ser
nas férias, quando estará em
casa. Sei que o certo seria ele
mesmo ligar e marcar.
Mas me preocupo, não tem jeito".
Cortar esse cordão umbilical é
possível, garante a psicóloga de
Santos Maria de Lourdes da Cunha
Sola. "O jovem precisa ter
suas responsabilidades, aprender
a fazer as obrigações da vida
adulta, ou ele nunca crescerá".
Caso não assuma seus deveres,
os prejuízos não tardam a surgir.
"Podemos lembrar
que os adultos de hoje
foram crianças ontem. Hoje eles
expressam todas as habilidades e
condutas que foram desenvolvidas
em sua infância e adolescência",
fala o psicólogo, que mantém o site
www.alessandrovianna.com.br.
O excesso de mimos pode,
inclusive, prejudicar seu futuro
profissional, garante Vianna. "Como um adulto que sempre
foi mimado, que sempre pôde
tudo na infância, saberá lidar, por exemplo, com a pressão do
mercado de trabalho? Como uma
criança que teve tudo o que quis e
nunca precisou compartilhar nada
com ninguém saberá zelar pela
sua esposa e por seus filhos?
Quem nunca ouviu um não na
infância certamente não conseguirá
entender esta palavra na
idade adulta. Isso gerará uma
enorme frustração".
TROPEÇOS OCORREM
Mas claro que a relação entre pais
e filhos nem sempre é um mar de
rosas. Confrontos estão presentes
e, com eles, os desentendimentos
e diferenças de opiniões,
principalmente na fase em que o
jovem está descobrindo o mundo e
os adultos decidem partir para a
bronca. "Quanto mais impositiva for
a forma de comunicação, mais o
filho irá se afastar, justamente
por ele estar em um momento
de busca de identidade".
Maria de Lourdes da
Cunha Sola comenta que é
absolutamente normal o jovem "se achar" nesse período da vida.
E cabe aos pais entender e
incentivar. "Imagine um rapaz
que estudou para entrar em
uma faculdade muito difícil e
conseguiu! É natural que se
sinta vitorioso, e todos devem
viver isso com muita alegria".
O diálogo – e sempre ele – é o
melhor aliado. Especialmente
se for tranquilo e acolhedor, no
qual os pais devem expressar
suas angústias em relação ao
comportamento praticado pelo
filho. "Lembro sempre: se os
pais não acolhem os filhos, outras
pessoas podem acolher".
Em um momento em que o
jovem acha que sabe tudo, por
mais tranquila que seja uma
conversa, nem sempre é fácil para
os adultos expressarem suas
opiniões. O famoso conselho entra
por um ouvido e sai pelo outro. "Nesse momento de busca da
individualidade, a parceria e o afeto
são sempre o smelhores meios".
O empresário Fernando de
Almeida está enfrentando essa
situação. "Sinceramente, não sei
como tratá-lo direito. Dar bronca
não resolve, pois já está na
faculdade, faz estágio. Conversar,
em alguns casos, também não.
Fico sem saber como agir com minha filha, que tem 20 anos.
Acho que é normal as opiniões
diferentes, mas fico com medo do
que ela enfrenta da porta para fora".
Para pais como Fernando,
Alessandro Vianna dá as
seguintes dicas:
- Os pais erram muito dando a
famosa lição de moral, pois isso
raramente surte efeito.
- Vale a pena ouvir pacientemente o
filho, mostrar que o entendeu; mas
expressar de forma serena e firme
seu ponto de vista, calcado também
em suas experiências passadas.
- Nunca se coloque em uma
postura santificada. Ou seja: "Na minha época eu fazia isso, aquilo
e aquele outro". As épocas mudaram.
- Gritos e agressões só expressam
o descontrole dos pais. Isso não
gera admiração e respeito.
PROTEÇÃO EM DEMASIA
Como dizem os especialistas,
vivemos atualmente um fenômeno
interessante dentro das famílias.
Isso porque os jovens estão
demorando para amadurecer e os
pais estão mais protetores.
"Sinto os adultos cada vez mais
culpados pelas suas ausências,
por trabalharem demais e, quando
estão comos filhos, acabam
mimando-os excessivamente.
Muitas vezes, com dificuldades de
impor limites", diz Alessandro.
Segundo ele, esse tipo de
atitude faz com que a criança
se desenvolva sem ter que romper
barreiras, que é o que traz o
amadurecimento. "As coisas muito
fáceis da vida fazem com que
os filhos se posicionem de uma
forma passiva e acomodada".
Para a psicóloga de Santos, por
mais perigoso que o mundo seja e
por mais que os jovens estejam
expostos a riscos (drogas, violência,
etc.), os pais precisam confiar na
educação que deram. "Não adianta
ficar com medo e proteger porque
você, como pai, vai prestar um
desserviço a seu filho. Uma hora ele
vai precisar enfrentar a vida".
ROMPER VÍNCULOS
No Brasil, principalmente, os
jovens demoram muito para sair
de casa. Algo que não ocorre
em outros países, ainda que o filho
conte com ajuda financeira da
família. "Nossa cultura interfere
diretamente neste aspecto. Somos
latinos, amorosos, acolhedores,
afetuosos; mas possessivos e
ciumentos. Queremos proteger
sempre e mostrar
nosso afeto", acredita Vianna.
A dependência econômica
pode ser uma pedra no sapato
do filho e uma ferramenta
de barganha do pai, avalia o
psicólogo. No caso dos pais
que atuam dessa forma,
é importante saber que estão
desenvolvendo indivíduos
dependentes, que certamente
terão dificuldades na hora de
enfrentar os obstáculos da
vida. "Jogar na cara é inferiorizar
o filho. Isso não é amor, mas sim
posse. Se o relacionamento foi
estabelecido equivocadamente
desta forma, certamente é
melhor o jovem batalhar por
suas conquistas do que aceitar
esta relação de coação. E os pais
devem incentivá-lo a buscar
a sua independência", garante.
Acontece, porém, que muitas
famílias têm dificuldade em
perceber que aquele jovem
já pode andar com as próprias
pernas. "É um momento difícil
para ambos os lados. Porém, creio
que a melhor satisfação dos
pais é ver que valores e princípios
morais foram trabalhados e
assimilados coerentemente.
O importante, além de perceber,
é deixar o filho por em prática esse
aprendizado, e sempre acompanhar
o seu desenvolvimento", diz o
psicólogo. Para Maria de Lourdes,
filhos são e serão sempre filhos,
não importa a idade. "E pais
sempre se preocupam com eles,
não tem jeito".